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Edital

Trechos de um programa televisivo apresentado em 09/08/2013, fazendo referência ao Trabalho infantil em Limeira (SP)
Trabalho, sempre tem, e as oportunidades ficam bem à vista. Já emprego, dentro das leis, nem sempre. Meninas, mal saídas da infância, trabalham duro, cumprindo metas, prazos de entrega.

Quem manda é Rosineide, a dona da casa, chefe da filha de 12 anos, da filha da vizinha, que tem 14, e de outra adolescente de 15.
Repórter: Você gosta de fazer isso?
Menina: Gosto.
Repórter: Você acha ruim ficar sentada aqui enquanto você podia estar brincando?
Menina: Não. Só às vezes.
Repórter: E na hora que dá vontade de brincar?
Rosineide: Aí ela vai brincar.
Menina: Vou brincar. Primeiro o serviço, depois eu vou brincar.
Repórter: Sua mãe te paga direitinho?
Menina: Paga
Rosineide: Eu dou para ela comprar as coisinhas dela.
Repórter: E a filha da sua vizinha, ela recebe quanto?
Rosineide: Ela chega umas 14h30 e fica até 17h. Esse mês passado ela tirou quase R$ 100.
São correntes com elos muito pequenos. Elas encaixam a última argola, montam a terminação dos fechos. Trabalho repetitivo, que exige atenção total, e rapidez para valer à pena. Ela tem que montar 500 correntinhas para ganhar R$ 11.
Uma motoqueira chega com nova remessa. Dona Rosineide é terceirizada de uma fábrica de bijouterias. “Eu trabalhava com solda, mas acabei com a minha vista, então, agora só faço montagem”, conta da Conceição, dona de casa.
Repórter: Quantas casas vocês fazem?
Maria de Lurdes Santos, motogirl: Umas 30. Em alguns bairros.
Pelo visto, trabalho não falta. O mercado de joias e bijuterias é responsável por 40% da economia em Limeira, cidade do interior de São Paulo com 270 mil habitantes. O crescimento do número de fábricas, o aumento das exportações e o sucesso nos negócios alimentaram também a mão-de-obra infantil. 
Este ainda é o mundo de outra menina. Esforço máximo para ganhar, no fim do mês, R$ 30 ou R$ 40. “Não uso luvas, machuca um pouco as mãos. Abre calos, começa a doer”, conta.
Como denunciar, como provar o que acontece em bairros, em ruas inteiras, dentro das casas?
Ninguém sabe o tamanho do mercado informal em Limeira. Débora de Oliveira, de 29 anos, por exemplo, faz montagem de joias e bijuterias há 22 anos. “Meu pai trabalhava na roça, a minha mãe a gente precisava ajudar, trabalhava para ajudar ela. Comecei a trabalhar com 7 ou 8 anos na montagem de joias. Em termos de joia, eu entendo tudo”, conta a dona de casa.
Débora trabalhava com a mãe. Herdou o emprego quando ela morreu. “Eu não chamo outras pessoas para trabalhar comigo, elas que me pedem. Que nem é o caso dela, ela é a mulher do meu primo, inclusive, ele também é menor e o trabalha em um serviço mais pesado ainda, na madeireira”, acrescenta.
A soldagem, o ácido bórico: nada assusta essas mulheres, que dispensam máscaras e luvas porque elas só atrapalham. “Se fosse pra fazer mal já tinha feito. Desde o dia que eu comecei, já era para ter feito mal”, diz uma menina de 17 anos.
“Vocês está falando hoje pode não fazer mal, mas lá na frente faz sim. Eu sei que faz mal, mas é a necessidade. A gente precisa”, afirma Débora de Oliveira.
Não é fácil assim. Nem o Ministério Público tem poder legal para entrar na casa das pessoas para fiscalizar. O procurador aponta uma solução. “A educação em tempo integral é um dos melhores caminhos para se erradicar o trabalho infantil. Essa é a meta”, afirma Mário Gomes, procurador do Ministério Público do Trabalho - SP.
Uma adolescente, de 16 anos, também faz parte do projeto de erradicação, mas durante a entrevista, não resistiu e confessou que está de volta ao trabalho. A mãe precisa de ajuda. É assim desde criança, quando tinha apenas 8 anos.
“Se eu pudesse, se eu tivesse condição, eu preferia estar estudando, ter feito os deveres da escola, brincando com meus amigos, me divertindo. Foi o tempo que eu perdi fazendo joias. E esse caminho não valeu em nada, porque a minha infância não vai voltar mais, a parte de ser criança já foi e eu perdi trabalhando”, lamenta.
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